Réquiem para Meu Amado (conto)

17 de julho de 2009 at 18:41 (contos, crônicas e textos)

A jovem pianista tocava.

Ela dedilhava as teclas do piano como se não houvesse amanhã, não houvesse próxima nota, como se não houvesse vida além disso.

Ela podia sentir. Seu amado estava lá.

Quanto mais alto ela tocava, quanto mais próxima ela chegava da perfeição, mais perto podia senti-lo.

Ele estava lá, tentando se aproximar dela.

E era a música que iria uni-los novamente.

Já fazia quanto tempo…? Ela nem lembrava mais. Só sabia que precisava chegar à perfeição.

Só a música mais perfeita, tocada do modo mais divino, poderia trazê-lo de volta.

De volta para os braços delicados dela.

Cada nota era uma esperança a mais, mesmo que seus dedos doessem ela não parava de tocar.

Nunca, jamais.

Ele estava lá, tentando se aproximar dela. Ela podia sentir seu toque acolhedor de volta.

Ele não estava morto, ela sabia disso.

Ninguém poderia separar os dois. Ninguém. A música vinda daquele piano iria juntá-los.

Juntos para sempre, foi o que ele prometeu.

Seu noivo tinha feito essa promessa a ela.

Juntos para sempre.

Ela não se alimentava há dias.

Desde que ele morreu, ela não saiu do quarto.

Sempre tocando, sempre teclando.

Tentando trazê-lo mais para perto.

Se aperfeiçoando, chegando mais perto da perfeição.

A perfeição que o traria de volta.

Ela sentia no fundo de sua alma, seria dessa vez que ele a encontraria.

Cada tecla que ela apertava era uma lágrima de sua alma torturada. Ela sabia que ele tinha ido embora muito cedo, ele era jovem, os dois tinham planos, iam se casar, iam se mudar para Veneza, iam ter filhos, iam ter uma grande casa de frente para uma praça sossegada…

Ele estava lá.

Parado, do lado dela.

Ele estendeu a mão.

Ela a segurou.

Os dois foram embora.

Deixando para trás…

O corpo dela.

Os pais dela não sabiam o que havia acontecido. Depois de alguns dias com ela sem se alimentar, resolveram arrombar a porta do quarto.

Ela estava caída nas teclas do piano.

Um sorriso calmo em seu rosto.

Na morte, ela encontrou seu amor. E sua felicidade.

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